Promotor do MP traça perfil de caixeiros em Santa Catarina
É nas cadeias que os antigos e futuros arrombadores trocam informações sobre os ataques
Gabriela Rovai

Após a retomada do serviço do transporte de valores, pelo menos dois casos de ataques contra caixas eletrônicos foram registrados em Santa Catarina. Um foi uma tentativa frustrada pelo Gaeco na manhã de quinta-feira. Hoje os ladrões tiveram sucesso em arrombamento no Centro da Capital.
Coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e de Investigações Crimimais (Gaeco) do Ministério Público de SC, promotor Alexandre Graziotin, traçou um perfil do criminoso que vem agindo no Estado.
De acordo com o Graziotin, é nas cadeias que os antigos e futuros caixeiros trocam informações. São dicas de caixas onde a segurança é fraca, terminais mais fáceis de se arrombar, comparsas na rua a procura de parceria, quantidade de dinheiro existente em determinadas cidades e bairros, número de policiais na região do próximo alvo, entre outras informações que Graziotin preferiu manter sob sigilo.
Quando estão prestes a atacar e usar o conhecimento que adquiriram nas prisões, os caixeiros ainda fazem um levantamento da área.
_É uma análise minuciosa do local. Eles vêem se tem segurança, se a rua costuma ter movimento no horário do crime. Às vezes, suspendem a ação se encontram riscos não previstos como gente passando em frente a agência_diz o coordenador do Gaeco, promotor Alexandre Graziotin.
De modo geral, o perfil do arrombador é homem, ex-detento ou foragido do sistema prisional, não trabalha, vive exclusivamente do crime, tem baixa escolaridade e mora em comunidades carentes.
São várias quadrilhas especializadas em arrombamento a caixa eletrônico no Estado, de acordo com o Gaeco e a Deic. Elas atuam principalmente em Florianópolis, segundo o relatório com indicadores criminais do segundo semestre de 2012 da Secretaria da Segurança Pública (SSP).
Epidemia segundo a SSP
Este tipo de crime em SC "assumiu ares de epidemia a partir do segundo semestre de 2011", como consta no relatório da SSP. Foram 40 no primeiro semestre de 2011 e 89 casos no mesmo período de 2012, entre tentativas e arrombamentos consumados com maçaricos.
_O lucro é fácil e o risco é menor_explica o promotor Graziotin.
Segundo o coordenador do Gaeco, se cinco pessoas conseguirem arrombar um caixa com R$ 100 mil, dá R$ 20 mil para cada, o que significa quase três anos de trabalho ganhando salário mínimo. E muitas vezes um caixa é abastecido com R$ 300 mil.
Tem gente que só vive disso. É o caso da quadrilha presa pelo Gaeco na quinta-feira. Alguns integrantes deixaram o grupo, mas a base é a mesma. Há dois anos, o líder Leandro Boca Santa foi processado por arrombar um caixa do Banco do Brasil, em Santo Amaro da Imperatriz.
Boca Santa ainda não foi julgado e responde processo em liberdade provisória. O segundo preso pelo Gaeco também já tinha praticado crime contra o patrimônio e estava em livramento condicional depois de cumprir parte da pena em regime fechado. O terceiro não tem passagem pela polícia. Era sua estreia na detenção.
Como foi a prisão da quadrilha de Boca Santa pelo Gaeco
O frio de nove graus em Florianópolis, na manhã de quinta-feira, não desanimou uma das principais quadrilhas especializadas em arrombar caixas eletrônicos. A neblina até facilitou a ação dos caixeiros que chegaram na agência do banco Santander, em Coqueiros, quando ainda era noite, por volta das 6h, horário em que os terminais são automaticamente reabertos.
Contentes com o fim da greve no transporte de valores, os três comparsas se preparavam para faturar em cerca de 20 minutos o que ganhariam em dois anos de trabalho com carteira assinada e salário mínimo.
Mal sabiam eles que policiais do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e de Investigações Crimimais (Gaeco) do Ministério Público de SC, além de policiais civis e militares estavam monitorando cada movimento.
O Gaeco já tinha a informação de que o grupo agiria nesta semana e estava de campana na agência. As equipes viram quando o líder da quadrilha, Leandro Boca Santa acompanhado de um comparsa entrou com o maçarico no banco e um terceiro ficou do lado de fora para fazer a segurança da área em frente ao banco.
A agência é a mesma que sofreu tentativa de arrombamento no dia 6 de junho passado quando parte do local pegou fogo por causa da chama do maçarico.
Na tentativa de quinta, os criminosos chegaram a arrebentar o metal de um dos caixas eletrônicos e antes de retirar o dinheiro do terminal foram surpreendidos pelos policiais. Os três não tiveram tempo de reação e foram encaminhados para a carceragem da Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic), unidade que vem investigando as ocorrências em SC.
O grupo será indiciado por furto qualificado tentado. As qualificadoras são: mediante arrombamento e concurso de pessoas (mais de uma pessoa). Ainda será avaliado se serão indiciados por formação de quadrilha. A pena mínima é dois anos menos um terço pela ação não ter sido consumada.
_Para este tipo de crime a pena é muito branda. É mais fácil para quem vive do crime furtar caixas do que roubar pessoas_observou o promotor Alexandre Graziotin.
Os três deverão ser transferidos para o Presídio da Capital nesta sexta-feira.
Nenhum comentário:
Postar um comentário