Faltam policiais nas ruas, sobram nos gabinetes em Florianópolis.
Falta de policiamento ostensivo contrasta com o número que ocupa cargos nas assessorias de gabinetes
| Fábio Bispo
Florianópolis |
Fernando Mendes/ND
No Tribunal de Justiça praças têm tempo para descontrair e conversar
Se encontrar um policial militar pelas ruas de Florianópolis tem se tornado uma tarefa cada vez mais difícil, basta uma visita a qualquer prédio público na cidade para se deparar um. Eles estarão lá, para abrir a cancela da Assembleia Legislativa, ou, lhe informar onde fica cada uma das varas no Fórum da Capital, e assim por diante. A presença dos PMs nos prédios públicos como Tribunal de Contas, Procuradoria Geral da Justiça, Centro Administrativo e Câmara de Vereadores soma 410 policiais, quase o dobro do contingente do 4ª Batalhão, que atende a maior parte da cidade.
A guarda de prédios públicos é prevista pela Constituição Federal. Os policiais que ocupam os postos nesses órgãos recebem, além do vencimento fixo (ou soldo no jargão militar), uma bonificação. O valor da premiação varia entre cada um dos Três Poderes, e em algumas ocasiões ultrapassam 100% do salário fixo. No início do ano, o comandante geral da Polícia Militar, coronel Nazareno Marcineiro, usou a tribuna da Câmara de Vereadores para manifestar a sua vontade de reduzir o número de policiais nas assessorias e aumentar, consecutivamente, o contingente nas ruas. No entanto, os números mostram que a redução foi pequena de 412 no início do ano para 410 em julho.
Nas assessorias, longe da criminalidade, os policiais têm atividade reduzida. Sobra tempo, inclusive, para conversas em grupo, navegar na internet e até tirar um cochilo. Mas segundo os próprios policiais que ocupam os postos nas assessorias o policiamento nesses locais também não é suficiente. “Somos apenas em quatro, e fazemos o mesmo trabalho que um posto policial comum”, declara a sargento Marli Santana, que trabalha na Câmara de Vereadores de Florianópolis.
Proporção desigual
Enquanto os 410 policiais que fazem a guarda dos prédios públicos brigam para garantir o trabalho nos postos, inclusive porque remuneração é mais elevada dos que trabalham nas ruas, os 579 policiais militares que fazem o policiamento dos mais de 421 mil habitantes de Florianópolis não recém nenhum tipo de bonificação. “Não é certo tirar a bonificação dos que estão nas assessorias, temos é que igualar o salário dos policiais que estão nas ruas e fazer novas contratações”, reivindica Manoel João da Costa, o vice-presidente da Aprasc (Associação dos Praças de Santa Catarina). Segundo dados da associação, o quadro do Estado está defasado em 20.320 policiais.
Reflexo nas ruas
Na semana passada, moradores dos bairros do Oeste e Norte da Ilha protestaram, na SC-401, por mais segurança pública. A população na região já ultrapassa a marca dos 160 mil habitantes e esta guarnecida por apenas 112 policiais. Uma das reclamações foi o fechamento dos Postos Policiais nos bairros e a falta de rondas, o que, segundo os moradores, teve reflexo direto no aumento da criminalidade.
O comandante do 21º Batalhão, Dinoh Corte Júnior, diz que falta pessoal para reativar os postos policiais. No cronograma de contratação anunciado pelo Governo do Estado, a região deve receber apenas 12 homens, número insuficiente para reabrir sequer um dos postos fechados. “Cada posto exige pelo menos 16 policiais para funcionar”, declarou Dinoh durante uma reunião com os moradores.
- Enquanto 410 policiais fazem a guarda dos prédios públicos, 579 são incumbidos de cuidar de mais de 421 mil habitantes.
- Denúncias dão conta que a sargento Marli, que faz a segurança da Câmara, tirou licença para fazer o curso de oficial e continuou recebendo gratificação sem comparecer no posto de trabalho na Câmara durante seis meses.